Confusão súbita no idoso: pode ser uma infeção urinária?

Confusão súbita no idoso: pode ser uma infeção urinária?

Na terça-feira, a mãe do Jorge, com 84 anos, falou com o filho ao telefone como em qualquer outro dia. Comentou a consulta da semana, queixou-se do tempo, perguntou pelo neto. Tudo normal.

Na quinta à tarde, foi a vizinha quem ligou, em pânico. A mãe do Jorge estava à porta de casa em camisa de noite, sem saber onde estava. Quando o filho chegou, ela não o reconheceu. As palavras vinham trocadas. O Jorge levou-a à urgência convencido de que era o início de uma demência. Voltou para casa quatro horas depois com um diagnóstico bem mais simples e tratável: uma infeção urinária.

Esta história não é de uma pessoa. É de muitas. Em Portugal, cerca de 240 mil pessoas vivem com demência, segundo o relatório da Alzheimer Europe. Mas há outras tantas que ouvem o diagnóstico errado, quando o que estão a viver é um quadro agudo e reversível, que se resolve em poucos dias com o tratamento certo.

Neste artigo, explicamos porque é que uma infeção urinária consegue mudar a personalidade de um idoso de um dia para o outro, como distinguir delirium de demência, e o que fazer quando a suspeita aparece em casa.

O que acontece quando uma infeção chega ao cérebro do idoso

Uma infeção urinária não é só um problema da bexiga. Quando se instala, o corpo todo reage, e essa resposta inflamatória pode chegar ao cérebro.

Num adulto saudável, isto raramente é problema. O cérebro tem reserva de sobra para gerir a inflamação e os sintomas ficam onde se espera (ardor a urinar, vontade frequente, dor no baixo abdómen). Num idoso, a coisa muda. Com a idade, o cérebro perde aquilo a que se chama reserva cognitiva, ou seja, a margem que lhe permite continuar a funcionar bem mesmo sob pressão. Quando a infeção chega, essa margem deixa de chegar, e o cérebro entra em sobrecarga.

O resultado tem nome técnico: delirium. É um estado confusional agudo, quase sempre provocado por uma causa muito concreta: uma infeção, uma medicação nova, uma desidratação. A infeção urinária é uma das causas mais frequentes de delirium nos idosos.

A chave está aqui: quando se trata a causa, o delirium resolve-se. Mas se for confundido com demência e gerido como tal, pode arrastar-se por semanas e deixar marcas cognitivas que não tinham de existir.

Os sinais que escapam: porque a febre e a dor podem nunca aparecer

Esta é a parte que mais apanha de surpresa quem cuida pela primeira vez. Em boa parte dos casos, o idoso com infeção urinária não tem febre. Não tem ardor. Não tem queixa nenhuma a urinar.

O grande mito: “se não há febre, não é infeção”

O que aprendemos com adultos saudáveis não se aplica ao idoso. À medida que o sistema imunitário envelhece, perde a capacidade de produzir os sinais clássicos da infeção. Um idoso pode estar com uma infeção bem instalada e ter temperatura corporal normal, ou até abaixo.

No idoso, esperar pela febre para suspeitar de infeção é um erro frequente, e perigoso.

O que procurar em vez disso

Os sinais que contam são quase sempre comportamentais:

  • Confusão que aparece em horas ou dias (e não em meses)
  • Incontinência urinária nova, ou agravamento súbito de uma incontinência ligeira que já existia
  • Sonolência excessiva durante o dia, com dificuldade em segurar uma conversa
  • Agitação à noite ou inversão do ciclo do sono
  • Queda inexplicada, sem tropeço aparente
  • Recusa súbita em comer ou beber
  • Perda de equilíbrio em alguém que até há pouco andava bem

Sozinho, nenhum destes sinais prova que há uma infeção. Mas quando aparecem de repente, em alguém que estava bem na semana anterior, a infeção urinária tem de estar entre as primeiras hipóteses a considerar.

Demência ou delirium? Três perguntas que mudam tudo

A confusão entre demência e delirium é a razão pela qual tantos episódios reversíveis ficam mal interpretados em casa. Os médicos usam o Confusion Assessment Method para distinguir um do outro. Em casa, podemos adaptar com três perguntas simples.

1. Apareceu de um dia para o outro?

A demência é insidiosa. Avança em meses, em anos. Há sempre um declínio gradual que a família, olhando para trás, consegue desenhar.

O delirium é abrupto. Ontem estava bem, hoje não está. Esta diferença é a pista mais forte de todas.

2. Há momentos de lucidez ao longo do dia?

O delirium flutua. O idoso pode estar perdido às 10 da manhã, parecer normal ao almoço, e voltar a ficar perdido ao jantar. Pode ter cinco minutos de conversa coerente, seguidos de um momento em que nem se lembra do que disse há pouco.

A demência não funciona assim. As alterações são mais constantes, sem oscilações grandes num mesmo dia.

3. Consegue manter a atenção numa conversa simples?

O delirium destrói a atenção. Faça uma pergunta simples, como “que dia da semana é hoje?” ou “o que comeu ao almoço?”, e repare se a pessoa fica com o olhar perdido a meio da resposta, se se distrai com qualquer coisa que se mexa, se perde o fio à conversa.

Na demência, a atenção mantém-se preservada nas fases iniciais e moderadas. O que está afetado é a memória, a orientação, a linguagem.

Se as três respostas apontam para delirium (apareceu de repente, flutua ao longo do dia, atenção destruída), é razão para procurar uma causa médica imediata.

O que NÃO fazer quando suspeita

Há uma regra simples que, sozinha, evita metade dos erros: não tente tratar isto em casa.

Não use tiras de teste de farmácia para “confirmar” a infeção

As tiras detetam bactérias e leucócitos na urina. Acontece que, nos idosos, é comum encontrar bactérias na urina sem haver infeção nenhuma. Chama-se a isto bacteriúria assintomática: bactérias presentes, sem causarem doença.

Estima-se que entre um quarto e metade das mulheres idosas em lar tenham bactérias na urina sem estarem doentes. E as recomendações internacionais são claras: nestes casos, não se trata com antibiótico. Tratar sem ser preciso aumenta a resistência bacteriana, expõe o idoso a efeitos secundários sem benefício, e pode mascarar a verdadeira causa da confusão (uma desidratação, uma medicação a interagir mal).

Em resumo: ver bactérias num teste não significa infeção. Quem decide é o médico, olhando para o conjunto.

Não espere para ver se “passa”

O delirium não tratado pode arrastar-se por semanas e deixar sequelas cognitivas, sobretudo em idosos frágeis. Esperar, neste caso, não é prudência. É deixar agravar.

Não desvalorize com “é da idade”

É a frase mais perigosa de todas. Envelhecer não significa ficar confuso de um dia para o outro. Confusão repentina nunca é “da idade”. É sempre sinal de alguma coisa.

O que fazer e quando ir à urgência

A primeira pergunta certa não é “que medicamento dou?”, mas “quem avalia?”.

Para sintomas leves a moderados: médico de família ou SNS 24

Se a confusão é ligeira, o idoso reconhece a família, está a alimentar-se e não tem febre alta nem outros sinais graves, comece pelo médico de família ou pela linha SNS 24 (808 24 24 24). Em muitos casos é possível agendar consulta para o próprio dia, e fazer uma análise à urina sem ir à urgência.

Para sintomas graves: urgência hospitalar

Há quadros que justificam ir já:

  • Febre alta (acima de 38,5 °C), tremores ou suores intensos
  • Sonolência profunda, com dificuldade em acordar a pessoa
  • Sangue visível na urina
  • Dor lombar intensa (pode indicar que a infeção subiu aos rins)
  • Vómitos persistentes ou incapacidade de beber líquidos
  • Confusão profunda em que a pessoa não reconhece a família nem a casa

O que levar à urgência

Para uma avaliação rápida, é útil chegar com:

  • Lista atualizada da medicação (com dosagens)
  • Registo de quando começaram os sintomas (manhã de quinta? noite de quarta?)
  • Cartão de utente, ADSE ou outro subsistema
  • Antecedentes clínicos (diabetes, demência prévia, infeções urinárias anteriores, algaliação)

Este pormenor, o registo do quando começou, faz a diferença entre um diagnóstico rápido e horas perdidas em hipóteses.

Como prevenir uma próxima

Quem já teve uma infeção urinária com confusão tem mais probabilidade de repetir. A prevenção em casa é simples. Pede sobretudo consistência.

  • Hidratação. Os idosos perdem a sensação de sede com a idade e bebem pouco por hábito. A regra prática é 1,5 a 2 litros de líquidos por dia (água, chá, sopa, fruta), salvo restrição médica.
  • Higiene íntima cuidada. Limpar de frente para trás, manter a região seca, mudar roupa interior diariamente. Evitar tecidos sintéticos apertados.
  • Trocas frequentes de fralda. Em idosos com incontinência, mudar à mínima sujidade. Cada troca atrasada aumenta o risco de infeção.
  • Atenção a doentes algaliados. A algália é, por si só, um fator de risco. Manter o saco coletor abaixo do nível da bexiga, evitar dobras no tubo, seguir o calendário de mudança definido pelo enfermeiro.
  • Vigilância diária. Registar as pequenas alterações (está mais sonolento? bebeu menos água? ficou agitado à noite?), ao longo da semana, dá pistas que isoladamente não saltam à vista.

Se quiser aprofundar a parte da prevenção e do tratamento médico, complete esta leitura com o nosso artigo sobre infeção urinária no idoso: sintomas, tratamento e prevenção.

Em resumo: confusão súbita não é “da idade”

A confusão repentina num idoso é quase sempre um sinal a investigar, não um veredicto. Pode ser uma infeção urinária, uma desidratação, uma reação a uma medicação nova. Em todos estes casos há tratamento. Em todos eles, é reversível.

O erro mais caro é desvalorizar. Aceitar uma alteração súbita como “é da idade”, esperar para ver se passa, ou levar para casa um diagnóstico de demência sem que ninguém tenha investigado o que está por trás.

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Este artigo tem carácter informativo e não substitui o aconselhamento médico. Consulte sempre um profissional de saúde.