Paranoia, delírios e alucinações na demência: como lidar?

Paranoia, delírios e alucinações na demência: como lidar?

“Roubaram-me a carteira.”

“Está um homem no meu quarto.”

“Vocês querem pôr-me num lar.”

Para uma família, ouvir estas frases pode ser desconcertante. Sobretudo quando sabemos que a carteira não foi roubada, não está ninguém no quarto e nunca houve qualquer conversa sobre um lar.

A reação mais imediata é corrigir. Explicar que não aconteceu, mostrar provas, tentar convencer. Só que, naquele momento, a pessoa pode estar verdadeiramente convencida do contrário. E nada do que diga ou faça a fará mudar de ideias!

Paranoia, delírios e alucinações podem surgir na demência e, embora muitas vezes sejam confundidos, não são a mesma coisa. Perceber o que distingue cada um é o primeiro passo para saber como reagir.

Qual a diferença entre os três conceitos?

Embora possam aparecer associados e até sobrepor-se, delírio, paranoia e alucinação não significam a mesma coisa.

» Delírio

Um delírio é uma crença que a pessoa considera verdadeira, apesar de não corresponder à realidade. Na demência, pode acontecer quando o cérebro tenta dar sentido a informação que já não consegue interpretar ou recordar corretamente.

A carteira desapareceu e a pessoa não se lembra de onde a guardou: “Roubaram-ma.” O companheiro saiu para ir às compras: “Foi ter com outra pessoa.” A família fala mais baixo noutra divisão: “Estão a esconder-me alguma coisa.”

Não está a mentir nem a inventar deliberadamente. Para ela, aquela explicação pode fazer todo o sentido.

» Paranoia

A paranoia caracteriza-se sobretudo pela desconfiança e pela ideia de que alguém tem más intenções. Pode surgir associada a um delírio e dirigir-se precisamente às pessoas mais próximas.

“Estão a querer ficar com a minha casa.”
“A minha filha anda a tirar-me dinheiro.”
“Querem pôr-me num lar.”

É por isso que paranoia e delírio são tão fáceis de confundir. A diferença está no conteúdo: na paranoia, a suspeita, a ameaça ou a perseguição ocupam um lugar central.

» Alucinação

Numa alucinação, a pessoa vê, ouve ou sente algo sem existir um estímulo externo que o provoque.

Pode ver alguém sentado numa cadeira vazia, ouvir uma voz quando não está ninguém a falar ou sentir que alguém lhe tocou.

Aqui já não estamos perante uma crença sobre aquilo que aconteceu. Existe uma experiência sensorial que, para quem a vive, parece real.

Uma forma simples de distinguir: acreditar que alguém entrou em casa para roubar é um delírio; ver essa pessoa dentro da sala quando não está lá ninguém é uma alucinação.

Como lidar com os delírios na demência?

Quando alguém diz que lhe roubaram a carteira, a tentação é mostrar que não: “Estás a ver? Estava aqui. Ninguém a roubou.”

Só que encontrar a carteira pode não acabar com a suspeita. A pessoa pode continuar convencida de que alguém a tirou e a voltou a pôr no sítio, por exemplo. Entrar numa discussão para provar o contrário tende a aumentar a tensão.

Se a carteira desapareceu, procure-a em conjunto: “Vamos ver onde está.” Quando aparecer, entregue-a e deixe o assunto ficar por aí. Não é preciso aproveitar o momento para mostrar quem tinha razão.

O mesmo vale para frases como “querem tirar-me de casa”. Não confirme algo que não é verdade, mas também não precisa de responder com uma sucessão de argumentos. Um “percebo que estejas preocupado com isso” pode ser suficiente naquele momento.

Depois, se conseguir, mude o foco da conversa. Às vezes, continuar a falar do assunto só dá mais espaço a uma ideia que já está a provocar ansiedade.

Como lidar com a paranoia?

A paranoia pode ser particularmente difícil para quem cuida porque as acusações atingem frequentemente quem está mais próximo.

“Tu roubas-me.”

“Estás a esconder coisas de mim.”

“Queres ficar com a minha casa.”

Saber que a demência pode estar por trás destas acusações não faz com que seja mais agradável ouvi-las. Evite entrar numa sucessão de justificações ou exigir que a pessoa reconheça que está enganada. Quanto mais ameaçada se sentir, mais à defensiva pode ficar.

Responda de forma curta e tranquila. Se a conversa estiver a escalar e for seguro fazê-lo, afastar-se durante alguns minutos e voltar mais tarde pode resultar melhor do que continuar a insistir.

Também vale a pena procurar padrões.

Se o dinheiro ou outros objetos “desaparecem” com frequência, repare onde acabam por aparecer. Há gavetas, bolsas ou cantos da casa que podem estar a ser usados repetidamente para os guardar.

Criar um lugar habitual para as chaves, a carteira ou outros objetos do dia a dia pode evitar algumas acusações e discussões. Para aquilo que se perde facilmente, ter cópias dá jeito.

Nem todas as acusações têm de ficar resolvidas naquele momento. Insistir no assunto pode apenas prolongar a desconfiança. Por vezes, é preferível deixar a conversa “morrer ali” e retomá-la mais tarde, caso ainda faça sentido. 

Como reagir a uma alucinação?

Uma alucinação não tem necessariamente de provocar medo. A pessoa pode dizer que está uma criança sentada na sala e continuar tranquila, sem sentir que aquela presença representa uma ameaça. Numa situação destas, contrariá-la com um “não está aí ninguém” pode não trazer qualquer benefício.

A abordagem muda quando aquilo que vê ou ouve a assusta, a deixa agitada ou a leva a querer fugir. Nesse momento, discutir se é real ou não passa para segundo plano. O medo que está a sentir, esse sim, é real.

Aproxime-se com calma e dê-lhe segurança. Frases simples como “estou aqui contigo” ou “vamos até à cozinha” podem resultar melhor do que tentar explicar que não existe ninguém no quarto.

Também vale a pena olhar à volta. Uma sombra, um reflexo, a televisão ligada ou um objeto mal identificado podem estar a alimentar o que está a acontecer. Acender a luz, mudar de divisão ou afastar esse estímulo pode ser suficiente para a pessoa acalmar.

Perante uma tentativa de fuga, agressividade ou risco de queda, já não se trata apenas de tranquilizar. A prioridade passa a ser manter a pessoa e quem está à sua volta em segurança.

Às vezes, o problema está mesmo à frente dos nossos olhos

Nem tudo o que parece uma alucinação é. O próprio ambiente prega partidas.

Ao anoitecer, o reflexo numa janela pode parecer uma pessoa. Um casaco pendurado atrás da porta ganha a forma de uma figura, uma sombra no corredor parece mexer-se e as vozes da televisão noutra divisão podem ser confundidas com alguém a falar dentro de casa.

Na demência, interpretar corretamente aquilo que se vê e ouve pode tornar-se mais difícil, sobretudo quando também existem problemas de visão ou audição. Vale a pena reparar no contexto em que estes episódios aparecem. Talvez aquela “pessoa” surja sempre junto ao mesmo espelho, a confusão aumente ao fim do dia ou determinado canto da casa fique cheio de sombras quando escurece.

Pequenas alterações no ambiente podem resolver algumas destas situações: melhorar a iluminação, fechar os cortinados ao anoitecer, reduzir reflexos, baixar o som da televisão ou retirar um objeto que esteja constantemente a ser confundido com outra coisa.

Começou de repente? Não atribua tudo à demência

Este ponto merece atenção. À medida que a demência progride, a pessoa tende a tornar-se mais confusa, porém, uma alteração brusca do comportamento não deve ser automaticamente explicada dessa forma. Se as alucinações, os delírios ou a confusão aparecem subitamente, ou ficam muito mais intensos num curto espaço de tempo, é importante procurar avaliação clínica.

Dor, infeções, desidratação, alterações da medicação, privação de sono e problemas de visão ou audição são algumas das situações que podem interferir com o comportamento e a perceção. Uma mudança aguda do estado mental pode também estar relacionada com delirium, uma situação diferente da demência que exige avaliação da causa.

E este novo conceito, “delirium”, o que é?

Delirium é um estado de confusão aguda, que surge de forma súbita, em horas ou dias. A pessoa pode ficar desorientada, ter dificuldade em manter a atenção, ficar mais agitada ou sonolenta e apresentar alterações do comportamento.

Já o delírio é uma crença falsa que a pessoa acredita ser verdadeira, como achar que alguém lhe roubou dinheiro quando isso não aconteceu.

Resumindo: delirium é um estado de confusão; delírio é uma alteração do pensamento/crença.

Antes da consulta, tome nota do que aconteceu

“Tem tido alucinações” dá uma pista ao profissional de saúde. Contar o que vê, quando acontece e como reage dá contexto. 

Durante alguns dias, anote:

  • quando começaram;
  • o que a pessoa diz ver, ouvir ou acreditar;
  • a hora a que acontecem;
  • quanto tempo duram;
  • se provocam medo ou alteram o comportamento;
  • o que estava a acontecer imediatamente antes;
  • alterações recentes da medicação;
  • mudanças no sono, alimentação ou hidratação;
  • febre, dor ou outros sintomas que tenham surgido.

Essa informação pode ser muito mais útil do que tentar reconstruir vários episódios de memória durante uma consulta.

E quem cuida, aguenta como?

É fácil dizer “não leve as acusações a peito”. Difícil é ouvir, dia após dia, alguém de quem gostamos dizer que lhe roubámos dinheiro, que estamos a mentir ou que lhe queremos fazer mal. Mesmo sabendo que é a doença a interferir com a forma como interpreta o que acontece à sua volta, ouvir estas acusações desgasta.

Numa discussão, tentar provar que a pessoa está errada raramente resolve. Se os ânimos estiverem a subir, pode ser melhor parar, dar algum tempo e voltar ao assunto mais tarde. Com outra pessoa, a reação também pode ser diferente.

Há um ponto em que a família não tem de continuar a tentar resolver tudo sozinha. Episódios cada vez mais frequentes, agressividade, medo intenso, tentativas de sair de casa ou cuidados que começam a ser difíceis de assegurar são motivos para procurar ajuda.

Na Novo Cuidar, acompanhamos pessoas idosas e famílias no domicílio, com um plano de cuidados individual, ajustado às necessidades de cada pessoa.

Viver com delírios e alucinações pode ser difícil para quem os experiencia e para quem está ao lado. Nem sempre haverá uma frase certa ou uma reação que resulte todas as vezes. O mais importante é ir percebendo o que desencadeia estes episódios, o que tende a acalmar a pessoa e quando é preciso procurar ajuda.

Com o tempo, a família acaba por conhecer melhor esses sinais – e isso também faz parte de aprender a cuidar.