O seu familiar com Alzheimer não quer tomar banho? Saiba o que fazer.

O seu familiar com Alzheimer não quer tomar banho? Saiba o que fazer.

Há dias em que basta falar no banho para começar uma discussão. Noutros, até parece que vai correr bem: prepara-se a roupa, vai-se buscar a toalha, chega-se à casa de banho… e acabou-se. Não entra.

Para quem está de fora, é difícil perceber. Tomar banho sempre fez parte da rotina. Porque é que agora é preciso negociar uma coisa que durante anos aconteceu sem sequer se pensar muito nela?

Na doença de Alzheimer, a recusa do banho pode ter muitas razões: medo de cair, frio, vergonha de se despir à frente de alguém, desconforto com a água ou simplesmente não perceber o que está prestes a acontecer. Pode até estar convencido de que já tomou banho.

Nestas alturas, insistir mais não costuma resolver. Quanto maior for a pressão, maior pode ser a resistência.

Antes de insistir, tente perceber de onde vem o “não”

Nem sempre vai conseguir descobrir.

Perguntar “porque é que não queres tomar banho?” pode acabar num “porque não” e ficamos na mesma. Quem tem Alzheimer pode sentir desconforto ou medo sem conseguir explicar exatamente o que se passa, por isso, vale a pena olhar à volta.

Está frio na casa de banho? A água faz demasiado barulho? Entrar no duche exige passar uma pequena barreira que agora parece enorme? Houve uma queda ou um susto? Despir-se à frente de outra pessoa está a causar vergonha?

A própria demência também pode mudar a forma como aquele espaço é percebido. Reflexos, sombras, diferenças de cor no chão ou o movimento da água podem causar estranheza ou insegurança.

Mas nem tudo vem da demência. Às vezes, simplesmente dói. 

Levantar os braços para lavar o cabelo, dobrar os joelhos, entrar na banheira ou ficar de pé durante vários minutos exige bastante do corpo. Uma dor que ainda ninguém percebeu pode estar por trás de muitos “não quero”.

Reformule a abordagem

“Está na hora do banho” não soa propriamente a um convite. 

Para alguém que já precisa de ajuda em várias coisas do dia a dia, ouvir mais uma instrução pode cair mal.

Não é preciso começar logo pela palavra “banho”. “Vamos lavar a cara”, “tenho aqui uma toalha quentinha” ou “quer vestir este pijama depois?” podem abrir caminho sem transformar o momento numa negociação.

Dar pequenas escolhas também ajuda. A toalha azul ou a branca? Banho agora ou daqui a pouco? Lavar primeiro a cara ou os braços?

Não estamos a falar de fazer um interrogatório à porta da casa de banho. Uma ou duas escolhas chegam. O objetivo é deixar algum espaço para decidir.

Não comece logo a despir

O banho é um momento íntimo. Sempre foi. Precisar de ajuda não faz desaparecer o pudor só porque existe Alzheimer.

Entrar numa casa de banho, ver a porta fechar e alguém começar imediatamente a tirar-nos a roupa pode ser assustador quando já não percebemos bem o que está a acontecer.

Vá com calma.

Deixe a casa de banho preparada antes de começar: toalhas, produtos de higiene, roupa limpa e tudo o que vai precisar. Ninguém quer ficar despido à espera, enquanto alguém vai à procura do champô que ficou no quarto.

Uma toalha sobre o corpo enquanto se despe ou lava determinadas zonas ajuda a preservar a privacidade e ainda resolve outro problema frequente: o frio.

Sempre que for possível, deixe fazer aquilo que ainda consegue fazer sozinho. Segurar a esponja, lavar os braços, passar água pela cara…

Ser mais rápido não justifica tirar-lhe a autonomia. 

E se o problema estiver na casa de banho? 

Há casas de banho que só “desajudam”: pouco espaço, chão molhado, uma banheira alta, má iluminação e nem um apoio de jeito para as mãos.

Ficar de pé durante o banho já custa? Não há razão para insistir. Pode tomar banho sentado, numa cadeira ou banco próprio. As barras de apoio também dão jeito para entrar, sair ou levantar-se sem andar à procura da parede para se agarrar.

Depois, tire o que está a mais. Cinco frascos no duche, roupa em cima do móvel, toalhas, embalagens… para quem já se baralha com facilidade, é informação a mais numa altura em que só queremos que o banho corra sem sobressaltos. Deixe por perto o que vai usar e guarde o resto.

“Já tomei banho!”

Esta é A frase que pode dar início a uma discussão interminável, que dificilmente acaba com alguém feliz debaixo do chuveiro.

– “Não tomou nada.”

– “Tomei, sim.”

– “Eu estava aqui e sei que não tomou.”

Se para ela o banho já aconteceu, dificilmente vai resolver o assunto tentando provar o contrário. Em vez de entrar nesse braço de ferro, contorne:

“Está bem. Vamos só lavar-nos mais um bocadinho antes de vestir o pijama.”

Ou então deixe o assunto a marinar e volte mais tarde.

Talvez o problema seja a hora

Durante anos, o banho foi de manhã. Agora, um dia é depois do almoço, noutro fica para antes do jantar e, quando o dia aperta, passa para a noite. É difícil manter uma rotina quando a própria rotina está sempre a mudar. 

Se sempre tomou banho de manhã – e continua a aceitar bem esse horário – não há grande razão para andar a mudá-lo. Manter uma rotina conhecida pode facilitar. Mas o contrário também acontece: às oito da manhã está ensonado, mal-humorado por ter sido acordado e não quer tirar o pijama. Nesse caso, não vale a pena ficar agarrado ao relógio só porque “sempre foi assim”. Experimente depois do pequeno-almoço ou noutra altura do dia em que esteja habitualmente mais tranquilo.

O que convém evitar é andar ao sabor do vento: hoje às nove, amanhã às três, depois às oito da noite. Tente perceber se o horário habitual ainda funciona. Caso tenha deixado de funcionar, procure outro que resulte melhor e tente manter alguma consistência.

Hoje não deu? Opte pelo plano B.

Não precisa de fazer da casa de banho um campo de batalha só para que um “não” termine num “sim”.  Naquele momento não há condições? Não é urgente higienizar a pessoa? Recue e tente mais tarde.

O banho também não tem de ser sinónimo de chuveiro da cabeça aos pés. Num dia mais complicado, faça a higiene por zonas. Cara, mãos, axilas, zona íntima, pregas da pele e outras áreas que precisem de limpeza podem ser cuidadas separadamente. 

Existem também produtos de higiene sem enxaguamento para os dias em que o banho completo não é uma opção. Para lavar o cabelo, há lava-cabeças próprios que permitem fazê-lo na cama, sem ser necessário levar a pessoa até ao duche. 

Conheça o lava-cabeças.

Hoje fez-se a higiene por zonas e amanhã tenta-se novamente o banho. Não tem de ser tudo ou nada. 

Gritos, empurrões ou medo: o que fazer quando acontecem?

Continuar à força nunca é o melhor remédio. Além do risco de queda ou de alguém se magoar, aquele momento pode ficar associado a medo e desconforto. Na próxima tentativa, a resistência pode começar ainda antes de entrar na casa de banho. Quando for seguro fazê-lo, pare. Cubra, vista e deixe para outra altura.

Se esta reação se repete, tente perceber o padrão. Acontece quando lava o cabelo? Quando entra no duche? Quando começa a despir? Apenas com determinado cuidador? Sempre à mesma hora?

Ao detectar um padrão, fica mais fácil perceber o que está a desencadear a reação. 

Começou a recusar o banho de repente? Aí convém estar atento.

Uma coisa é o banho andar complicado há meses. Outra é alguém que aceitava ajuda sem grande problema começar, de repente, a recusar, gritar ou reagir de uma forma completamente diferente.

Não ponha logo tudo na conta do Alzheimer. Observe. Entenda. 

Dor, alterações da pele, uma infeção, obstipação, efeitos de medicamentos ou um quadro de confusão aguda podem provocar mudanças de comportamento. Veja se apareceu mais alguma alteração, como febre, sonolência fora do habitual, menos apetite, alterações na urina, mais dificuldade em andar, dor ou uma confusão claramente diferente do habitual.

Uma mudança súbita, sobretudo quando vem acompanhada de outros sintomas, tem de ser avaliada por um médico.

Às vezes, com outra pessoa corre melhor.

Com o filho, recusa. Com a cuidadora, aceita. Ou exatamente ao contrário. Não quer dizer que goste mais de um do que de outro. Num cuidado tão íntimo, há várias coisas a pesar.

Repare, por exemplo, em:

  • O à-vontade entre os dois. Um pai pode não se sentir confortável a despir-se à frente da filha. Uma mãe pode sentir o mesmo com o filho. Mesmo dentro de um casal, a intimidade dos cuidados pode ser difícil de aceitar.
  • O jeito de quem ajuda. Há quem entre na casa de banho e comece logo a despir, lavar e dar instruções. Há quem consiga ir conversando, esperar, perceber quando deve avançar e quando é melhor não insistir.
  • A paciência. Um banho com Alzheimer pode demorar. Pressa, impaciência ou aquele “vamos lá, que já estamos atrasados” sentem-se rapidamente e podem aumentar a resistência.
  • A confiança. Nem sempre aparece no primeiro dia. Quando entra um cuidador novo em casa, é natural que haja estranheza. Ver a mesma cara, criar alguma familiaridade e não começar logo pelos cuidados mais íntimos pode tornar as coisas mais fáceis.
  • A forma de falar e tocar. Aproximar-se de repente, agarrar num braço sem avisar ou dar várias instruções de seguida pode assustar. Dizer o que vai fazer antes de o fazer e dar tempo para acompanhar o movimento é diferente.
  • O próprio estado de quem cuida. Depois de três recusas, uma noite mal dormida e meia hora de discussão, é difícil manter a mesma calma. Às vezes, trocar com outra pessoa não é só melhor para quem recebe o banho. Também dá algum descanso a quem tem estado a tentar.

Por isso, quando o banho acaba sempre mal com a mesma pessoa, experimentar outra ajuda pode ser uma solução. Algumas famílias recorrem a apoio domiciliário precisamente para os cuidados de higiene – de forma pontual ou integrada na rotina.

Não é “passar o banho para outra pessoa”. Às vezes, é simplesmente encontrar quem consegue tornar aquele momento menos difícil para todos.

Questão final: tem mesmo de tomar banho todos os dias?

Não. O mais importante é garantir a higiene necessária ao longo do dia, mesmo quando não há um banho completo.

  • Incontinência → lave e seque bem a zona íntima logo que possível.
  • Transpiração → lave as zonas mais suadas, sobretudo axilas e pregas da pele.
  • Cabelo oleoso ou sujo → lave apenas o cabelo.
  • Restos de comida → limpe o rosto, as mãos ou a zona que ficou suja.
  • Pés suados ou sujos → lave e seque bem, incluindo entre os dedos.
  • Pregas húmidas → lave e seque cuidadosamente.
  • Roupa interior suja ou húmida → troque-a, mesmo que não haja banho.
  • Pele vermelha, irritada ou com alguma ferida → não esfregue nem insista; vigie e, se necessário, peça orientação a um profissional de saúde.

Não é preciso levar alguém para o chuveiro sempre que há uma zona do corpo que precisa de ser lavada. A frequência do banho deve acompanhar as necessidades de higiene, e não simplesmente o calendário.