Os meus pais recusam ajuda em casa. O que posso fazer?

Os meus pais recusam ajuda em casa. O que posso fazer?

“Não quero cá estranhos! Sempre fiz tudo sozinha e posso continuar a fazer!”

A conversa começa por aí. Os filhos veem o frigorífico quase vazio, a roupa por lavar, a medicação trocada, uma casa que já conheceu melhores dias ou uma mãe que demora uma eternidade a tomar banho. Tentam falar no assunto e levam logo com um “eu cá me arranjo”.

Só que já não se arranja assim tão bem.

Quando uma pessoa começa a perder autonomia, é natural querer resolver o problema depressa. Encontrar alguém atencioso e profissional que acompanhe as refeições, esteja atento aos comprimidos, dê uma ajuda na higiene e até a leve a dar uma voltinha, que tão bem faz ao corpo e à cabeça.

Na impossibilidade de a família estar presente, ter alguém por perto também traz segurança. Uma pessoa cai, bate com a cabeça… vive sozinha, ninguém sabe. Podem passar horas até alguém perceber que alguma coisa aconteceu. Este é um cenário perfeitamente possível.

Já o cenário na cabeça daquela mãe é outro.

Aceitar ajuda pode significar admitir que envelheceu e que já não consegue fazer tudo como antes. Só que ela fez mesmo tudo sozinha até aqui: trabalhou, criou os filhos, tratou da casa, resolveu problemas durante uma vida inteira. Como assim querem agora mandar nela?

É por isso que “como é que convenço os meus pais?” talvez não seja a primeira pergunta a fazer. Antes de tentar vencer o “não”, é preciso perceber o que está por detrás dele.

Porque é que os idosos recusam ajuda em casa?

Os idosos podem ser um bocadinho teimosos, é verdade, mas nem sempre a teimosia é a grande vilã por trás da recusa. Inverter papéis não é fácil.

A entrada de um cuidador em casa torna as dificuldades mais visíveis e pode ser sentida como o primeiro passo para perder a independência. Há quem tenha vergonha de precisar de ajuda e não podemos negar que depender de outra pessoa para tomar banho, vestir-se ou ir à casa de banho pode ser difícil de aceitar – e ainda mais difícil de admitir. 

Também há preocupações muito concretas:

“Quanto é que isso vai custar?”

“Quem é essa pessoa?”

“Vai mexer nas minhas coisas?”

“Agora querem mandar na minha vida?”

Há ainda quem simplesmente não reconheça as próprias dificuldades e limitações, sobretudo quando existe demência. A família vê claramente que alguma coisa mudou; a própria pessoa pode acreditar genuinamente que continua a conseguir fazer tudo como antes. 

Evite começar pelo “tu já não consegues”

Mesmo que tenha razão, começar por aí pode não ser a melhor estratégia.

“Já não podes ficar sozinho.”

“Já não consegues tomar banho sem ajuda.”

“Olha para esta casa. Isto assim não pode continuar.”

Há frases que têm o dom de encerrar uma conversa antes de ela começar. Ouvir uma lista de tudo aquilo que deixou de conseguir fazer pode soar menos a preocupação e mais a uma declaração de incapacidade.

Experimente partir do problema concreto.

Em vez de: “Precisas de alguém para cuidar de ti.”

Diga: “Ultimamente ficas muito cansado quando preparas o almoço. Como podemos tornar isso mais fácil?”

A diferença parece pequena. Não é. Numa abordagem, já chegámos com a solução decidida. Na outra, a pessoa continua a fazer parte da decisão.

Não tente resolver tudo de uma assentada

Se os seus pais rejeitam completamente a ideia de apoio domiciliário, propor logo várias horas por dia, todos os dias da semana, pode assustar. Vá com calma. Comece por algumas horas para ajudar na limpeza ou preparar refeições. Mais tarde, pode surgir o acompanhamento a uma consulta, uma ajuda no banho ou mais um dia por semana.

Dê tempo para que se habituem à presença daquela pessoa e, sobretudo, para que ganhem confiança nela. É mais fácil aceitar uma pequena experiência do que sentir que, a partir de Aos poucos, aquele “estranho” deixa de ser um estranho.

Dê-lhes escolhas – mesmo quando algumas coisas já precisam de mudar

Precisar de ajuda não é deixar de ter voto na matéria. Enquanto for possível, os seus pais devem continuar a decidir sobre aquilo que lhes diz respeito.

  • Preferem apoio de manhã ou à tarde?
  • Em que tarefas gostariam de ter ajuda?
  • Há alguma coisa que querem continuar a fazer sozinhos?
  • Gostariam de conhecer primeiro o profissional?
  • Preferem começar apenas alguns dias por semana?

Mesmo quando o apoio domiciliário já é necessário, ainda há muito que pode ser decidido em conjunto. Preservar essas escolhas pode fazer a diferença entre sentir “vieram mandar em mim” e “continuo a ter uma palavra a dizer”.

“Não quero estranhos cá em casa”

É uma objeção que merece ser levada a sério.

A casa é provavelmente o espaço mais privado dos seus pais. De repente, alguém que nunca viram vai entrar no quarto, abrir armários, preparar uma refeição ou ajudar num momento íntimo. Não é propriamente o mesmo que receber uma visita para tomar café.

Foque-se em estabelecer uma relação de confiança com o profissional.

Quando existe essa possibilidade, conhecer previamente o cuidador, explicar como funciona o serviço e manter alguma continuidade no acompanhamento pode tornar a adaptação mais fácil.

Também não é preciso logo, no primeiro dia, o cuidador entrar a todo o vapor. A adaptação pode ser gradual: numa primeira visita, fica uma hora consigo e com os seus pais; noutra, já passa algum tempo sozinho com eles. Depois, a presença vai-se tornando mais familiar. 

Cuidado com a “emboscada familiar”

Filhos reunidos à mesa. Talvez um genro pelo meio. Todos preparados para convencer o pai de que precisa de ajuda. Ele percebe rapidamente que está em minoria.

Pode parecer uma boa estratégia juntar toda a família para “ele finalmente ouvir”, mas há um risco: a conversa transforma-se num julgamento.

“Todos achamos que já não podes estar sozinho.”

É muito diferente de: “Pai, há algumas coisas que nos estão a preocupar e gostávamos de perceber contigo como podemos resolvê-las.”

Escolha um momento tranquilo, evite discutir durante uma crise e, sempre que possível, deixe falar primeiro a pessoa da família com quem existe maior abertura para este assunto.

Não faça tudo às escondidas

Contratar apoio sem dizer nada e anunciar, na véspera, “amanhã vem cá uma senhora” é começar logo com o pé esquerdo.

Aquela pessoa vai entrar em casa, mexer nas rotinas e, em alguns casos, ajudar em coisas muito íntimas. Os seus pais têm de saber quem vem e o que ficou combinado. Sempre que for possível, devem participar nessa combinação.

Até porque a resistência que já existia pode piorar quando se junta outra sensação nada agradável: “decidiram isto tudo sem me dizer nada”.

Avise antes. Fale sobre quem vai entrar em casa. Se houver oportunidade, apresente o cuidador antes de começar o apoio a sério. Não elimina necessariamente a recusa, mas evita dar-lhe mais um motivo.

E quando dizem “não preciso”… mas os sinais dizem outra coisa?

Aqui a conversa fica mais delicada. Há uma diferença entre um pai que prefere não ter ajuda, mas continua a alimentar-se, tomar a medicação corretamente, cuidar da higiene e viver em segurança, e alguém que já está a acumular situações de risco:

  • medicação esquecida, repetida ou trocada;
  • refeições saltadas e perda de peso;
  • quedas ou quase quedas;
  • dificuldade crescente na higiene e no vestir;
  • comida estragada no frigorífico;
  • contas ou compromissos importantes esquecidos;
  • episódios de desorientação;
  • sinais de que já não consegue utilizar alguns equipamentos em segurança;
  • casa progressivamente mais desorganizada por incapacidade, e não por preferência;
  • exaustão do cônjuge que está a tentar compensar todas estas dificuldades.

Um episódio isolado pode não dizer muito. Vários sinais a acumularem-se já contam outra história.

O médico disse que precisa de ajuda. Mesmo assim, recusa.

Uma bata branca não faz milagres. Há pessoas que ouvem uma recomendação médica, concordam durante a consulta e, quando chegam a casa, voltam ao “não entra cá ninguém”.

Ainda assim, envolver o médico, enfermeiro, fisioterapeuta ou outro profissional que acompanhe a pessoa pode ser útil. Não para formar uma frente contra ela, mas para perceber melhor as limitações existentes, os riscos e aquilo que ainda consegue fazer autonomamente.

Ouvir “precisa de apoio para o banho porque existe risco de queda” é mais fácil de processar do que ouvir do filho “eu já te disse que não consegues tomar banho sozinho”.

Até onde devemos respeitar uma recusa?

A pessoa continua a dizer que não, mas já há sinais mais do que suficientes de que não está em condições de ficar sozinha. Os filhos têm medo de que aconteça alguma coisa. Devem impor-se?

Envelhecer não retira automaticamente o direito de escolha. Só que respeitar uma decisão também não pode significar fechar os olhos quando a pessoa está em perigo.

É aqui que a questão deixa de ser apenas “ela quer ou não quer?”. Será que compreende realmente o que está a decidir? Percebe o risco de continuar sozinha? Consegue avaliar as consequências de recusar ajuda?

Quando há dúvidas sobre essa capacidade, alterações cognitivas importantes ou riscos sérios para a própria pessoa ou para terceiros, já não basta a família discutir sobre quem tem razão. É necessária uma avaliação profissional que ajude a perceber até onde aquela pessoa consegue decidir por si e que medidas são necessárias para a proteger.

Nem sempre autonomia e segurança cabem perfeitamente no mesmo prato da balança. O difícil é não retirar a primeira antes de ser necessário, nem sacrificar a segunda só porque a resposta continua a ser “não”.

E se nada resultar à primeira?

Não transforme um “não” de hoje num “nunca”. Às vezes, a primeira conversa corre pessimamente. A segunda também não é brilhante. Insistir todos os dias só vai fazer com que a pessoa se sinta encostada à parede. Quando não existe um risco imediato, dê algum espaço, volte ao assunto mais tarde e experimente entrar por uma necessidade que ela própria reconheça.

Pode não aceitar “um cuidador”, mas aceitar alguém que prepare o almoço.

Pode torcer o nariz a “apoio domiciliário”, mas gostar da ideia de ter companhia para ir dar uma volta.

Pode dizer que não precisa de “ajuda no banho”, mas admitir que se sente mais segura com alguém por perto.

Às vezes, a resistência está também nas palavras. “Cuidador”, “apoio”, “dependência” podem soar a perda de autonomia antes sequer de o serviço começar. Não se trata de enganar ninguém nem de embrulhar a realidade para parecer outra coisa. Trata-se de inteligência emocional e de perceber que há várias maneiras de dizer a mesma coisa, que produzem resultados diferentes.

Pedir ajuda não tem de significar deixar de fazer

Aceitar apoio não significa deixar de mandar na própria vida. Deixe isso bem claro aos seus pais. Aquilo que ainda conseguem fazer continua nas mãos deles. O cuidador entra no que já custa mais, dá uma ajuda quando é preciso e recua quando não é. 

Questões que podem surgir…

Os meus pais podem recusar apoio domiciliário?

Sim. Em princípio, uma pessoa adulta pode recusar apoio domiciliário, mesmo que os filhos considerem que precisa dele. Envelhecer, ter limitações ou receber um diagnóstico de demência não retira automaticamente o direito de decidir.

A situação é diferente quando existem dúvidas sobre a capacidade da pessoa para compreender determinadas decisões e as suas consequências. Nestes casos, pode ser necessário avaliar se faz sentido recorrer ao regime do maior acompanhado.

Este regime existe para proteger adultos que, por razões de saúde, deficiência ou pelo seu comportamento, já não conseguem tratar de determinados assuntos da sua vida de forma plena e consciente sem apoio. Não significa entregar todas as decisões a outra pessoa. É o tribunal que avalia cada caso e determina em que matérias é necessário acompanhamento, procurando limitar a intervenção ao mínimo necessário e preservar a autonomia que a pessoa mantém.

O pedido pode partir da própria pessoa ou ser levado ao tribunal através de advogado ou do Ministério Público. Familiares, como filhos, também podem desencadear o processo nos termos previstos na lei. Mesmo que a pessoa não aceite ser acompanhada, isso não significa que o processo fique automaticamente bloqueado. Quando existem razões que justifiquem essa proteção, o tribunal pode permitir que o processo avance sem o seu consentimento. 

Para dar início ao processo através do Ministério Público, a família pode dirigir-se ao Ministério Público junto do tribunal cível da área de residência da pessoa ou apresentar o pedido através do formulário disponibilizado online. É aconselhável reunir a documentação clínica disponível e outros documentos relevantes para explicar a situação. Depois, caberá ao juiz ouvir a pessoa, avaliar o caso – normalmente com informação médica – e decidir se são necessárias medidas de acompanhamento, quais e quem deverá ser o acompanhante.

É melhor contratar alguém conhecido da família?

Não necessariamente. Ser alguém conhecido pode transmitir mais confiança ao início, mas isso não significa que esteja preparado para cuidar.

Uma pessoa sem formação pode, com a melhor das intenções, cometer erros numa transferência, na higiene, no posicionamento ou na forma como lida com determinadas doenças e limitações. Cuidar exige mais do que boa vontade.

O ideal é encontrar alguém em quem os seus pais confiem, mas que tenha também preparação para as necessidades concretas daquela pessoa.

Quando é altura de procurar apoio domiciliário?

Não é preciso esperar por uma queda ou por uma crise. Dificuldades crescentes na higiene, alimentação, medicação, mobilidade, tarefas domésticas ou permanência em segurança em casa são motivos para começar a avaliar opções.

Talvez a conversa não seja sobre perder independência

Para muitos pais, “precisar de ajuda” é sinónimo de: “Já não posso fazer isto. Já não me deixam fazer aquilo. Agora têm de cuidar de mim.”

Experimente virar a pergunta ao contrário: que coisas são importantes para os seus pais e que gostariam de continuar a fazer?

Continuar a viver em casa? Preparar o próprio pequeno-almoço? Ir ao café? Cuidar das plantas? Escolher a roupa? Sair à rua?

É a partir daí que o apoio pode começar a fazer sentido.

Na Novo Cuidar, o apoio domiciliário pode ser pontual ou regular e ajustado às necessidades de cada pessoa e família. Antes de acrescentar ajuda, importa perceber onde ela faz realmente falta – e onde ainda é importante deixar espaço para fazer sozinho.

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