Estratégias para os Cuidadores dizerem “não” sem culpa?

Estratégias para os Cuidadores dizerem “não” sem culpa?

Cuidar de um idoso traduz-se numa relação complexa e dinâmica que evolui com o tempo. À medida que as tarefas de cuidados aumentam, também aumenta o stress sobre o cuidador.

Para gerir este desafio com sucesso, todos terão que desenvolver a capacidade de expressar diretamente o que precisam, querem ou podem fazer.

Uma relação entre cuidador e idoso que permite e respeita limites e limitações individuais pode expandir-se sem o risco de diminuir a importância da relação principal de cuidados que sustenta o idoso no processo de envelhecimento.

O cuidador pode começar a sentir que já não consegue gerir as rotinas diárias de cuidados e as responsabilidades de planeamento, mas pode também sentir culpa por querer estabelecer limites às suas responsabilidades e por isso não expressa o que sente.

Infelizmente, para uma grande parte dos cuidadores, estas questões surgem numa altura em que se sentem já sobrecarregados e esgotados.

Ser capaz de dizer que “não”, pode não só salvar o cuidador do esgotamento emocional e físico, mas também abrir oportunidades para partilhar responsabilidades dos cuidados com outras pessoas, ao mesmo tempo que aprofunda o nível de honestidade e abertura na relação com o idoso.

Dizer “não” pode parecer uma afirmação fria e cruel para o cuidador que se vê como uma pessoa prestativa, gentil e amorosa. 

Muitos cuidadores escolhem tornar-se cuidadores porque sentem um imperativo moral de o fazer. Esse imperativo pode ter origens diversas, incluindo relações e papéis familiares, laços de amizade e expectativas sociais.

Uma grande parte dos cuidados aos idosos é prestada por familiares e outros membros da rede social informal do idoso. A proximidade também é uma componente dos cuidados. Quanto mais próximo geograficamente alguém está do idoso, mais provável é que se torne o cuidador.

Por estas razões, muitos cuidadores têm uma grande dificuldade para dizer “não” ao idoso quando é necessário. Neste sentido, o papel do cuidador está intimamente ligado ao código de ética do próprio cuidador e à forma como escolhe agir na sua própria vida.

Qual o significado de o cuidador dizer “não”?

Ao dizer que não, o cuidador não está a fazer uma renúncia definitiva às suas responsabilidades, nem a terminar a relação que tem com a pessoa que cuida. Por trás dessa postura está muitas vezes o cansaço, sensação de inadequação, esgotamento físico e mental ou a sensação de estar preso a uma situação que lhe é imposta.

Mais do que uma palavra, dizer “não” é mais uma atitude que pode ter significados diferentes para pessoas diferentes. Não tem necessariamente uma conotação negativa associada ao seu significado.

Pode ser entendido como uma pausa, um momento de reflexão, um período para respirar ou para parar e conversar.

É perceber que as coisas precisam de mudar ou serem feitas de outra forma, e é muitas vezes o primeiro passo para o cuidador estabelecer melhores limites emocionais.

Porque é importante para o cuidador estabelecer limites?

Estabelecer limites emocionais saudáveis é importante para ajudar o cuidador a distinguir entre as suas próprias necessidades e as necessidades da pessoa que está a ser cuidada.

Os limites lembram ao cuidador e ao idoso que a sua relação é entre dois adultos e que é necessário haver expectativas de respeito mútuo e autonomia para que a relação seja bem-sucedida.

O momento ideal para discutir os limites dos cuidados é no início, quando ambas as pessoas estão a iniciar o processo de desenvolvimento da relação na prestação de cuidados.

Falar sobre as necessidades de forma calma e solidária permite que cada um sinta a preocupação do outro, reconhecendo que a relação terá algumas limitações.

Num mundo ideal, não seria necessário estabelecer limites ou conversar sobre isso, no entanto a realidade é bem diferente.

Começar por falar sobre limites como parte de uma relação saudável, estabelece as bases para desenvolver resiliência emocional e flexibilidade para responder a um aumento nas necessidades de cuidados do idoso, enquanto se faz a inevitável gestão do stress do cuidador.

Na prática, a maioria dos cuidadores aborda a questão dos seus próprios limites depois de a relação de cuidados estar mais bem estabelecida.

Os cuidadores são frequentemente chamados a ajudar devido a uma crise de saúde grave e repentina de um idoso ou pelo processo lento, mas constante, de assumir tarefas e responsabilidades pelo idoso à medida que este envelhece e perde funções.

Em qualquer uma das situações, o cuidador e o idoso não estão necessariamente a pensar em fomentar uma relação, mas em realizar as tarefas que precisam de ser feitas.

Em primeiro lugar, atender às necessidades imediatas e críticas de cuidados de saúde do idoso tem prioridade sobre o planeamento de cuidados a longo prazo. No entanto, assim que o idoso estiver estável, é o momento certo para o cuidador discutir limites e restrições.

Por outro lado, os cuidadores precisam levantar a questão dos limites assim que começarem a detetar os primeiros sinais do seu próprio estresse ou esgotamento.

Estes sinais podem ser tão diferentes como começar a evitar o idoso, raiva, fadiga, depressão, distúrbios do sono, saúde precária, irritabilidade ou a sensação de que o cuidador se sente preso na situação, entre outros.

Todos estes sintomas são avisos de que o cuidador precisa de uma pausa e de apoio nas responsabilidades de cuidar.

Como dizer não com confiança?

Dizer “não” não é o mesmo que rejeição, mas sim estabelecer expectativas realistas, mantendo a compaixão.

Estas são algumas maneiras de recusar pedidos sem fomentar a culpa:

Reconhecer o pedido

Reconhecer a necessidade do idoso com compreensão. Demonstrar que reconhece que é uma situação que é importante para o cuidador e que pretende ajudar o idoso a encontrar uma solução.

Expressar sinceridade

Expressar claramente as capacidades próprias e o que o cuidador pode e o que não pode fazer.

Oferecer uma alternativa

Quando possível, sugerir outra maneira de realizar a tarefa.

Manter a calma

Nem todos os pedidos exigem uma resposta imediata. Se o cuidador sentir culpa, deve lembrar-se de que estabelecer limites permite que continue a prestar cuidados de qualidade a longo prazo.

Quando é que é necessário dizer “não”?

Nem todos os pedidos são urgentes ou essenciais, e alguns podem ser melhor tratados por outras pessoas.

Estas são algumas situações em que pode ser aceitável ao cuidador dizer “não”:

  • A tarefa parecer esmagadora ou contribuir para um stress excessivo
  • Aceitar teria um impacto negativo na própria saúde e nas responsabilidades
  • Concordar com o pedido levaria a ressentimento ou exaustão emocional
  • Existem outros recursos disponíveis, como apoio familiar ou ajuda profissional

Cuidar de alguém não é uma função que tem de ser assumida em solidão. Procurar apoio de outras pessoas, seja através da família, amigos ou outros cuidadores, pode ajudar a aliviar a carga e garantir que o idoso recebe os melhores cuidados possíveis.

Como respeitar os seus limites como cuidador?

Se o cuidador estiver doente ou demasiado stressado para funcionar bem, não será um bom cuidador. Limites saudáveis permitem ao cuidador ser generoso e compassivo com os outros, ao mesmo tempo que estende essas mesmas considerações a si mesmo.

Com a prática, o cuidador pode negociar e chegar a um compromisso para acomodar os desejos e necessidades do idoso, sem deixar de priorizar o que precisa para encontrar saúde, alegria e prazer na sua própria vida.

Cuidados bem-sucedidos envolvem manter um equilíbrio muito cuidadoso. É verdade que o idoso poderá não ter tudo o que deseja quando o cuidador começar a respeitar-se a si mesmo e a colocar as suas necessidades em primeiro lugar.

No início, isso pode até parecer prejudicial para quem recebe os seus cuidados, no entanto, os limites irão também ser uma forma de proteção contra o esgotamento e o burnout. Podendo até os cuidados prestados e as interações continuar a cuidar serem melhores por causa disso.

Como estabelecer limites?

Estabelecer limites emocionais envolve um processo de mudança com várias etapas. O cuidador poderá ter que fazer um longo processo para que consiga eventualmente estabelecer limites sem se sentir culpado.

Estes são alguns passos essenciais:

Encarar a situação

Em primeiro lugar, o cuidador deve admitir que a situação precisa mudar para manter um relacionamento significativo com o idoso. Sem esta mudança, o cuidador corre o risco de começar a ter uma saúde precária, depressão ou morte prematura.

Este aspeto é tão importante que, se o cuidador ficar com a saúde prejudicada, também coloca o idoso em risco adicional a problemas de saúde.

Verificar as crenças pessoais

O cuidador deve reconsiderar as suas crenças pessoais sobre o que significa ser um bom cuidador.

Como o cuidador geralmente tem expectativas morais em relação ao seu próprio comportamento, redefinir o que deve ser feito para o que é razoável e possível fazer pode ser um momento libertador.

Isso pode incluir reduzir algumas expectativas em relação à sua capacidade de fazer coisas e delegar tarefas a outras pessoas.

Identificar um sistema de apoio

O cuidador deve identificar as pessoas-chave como amigos, familiares ou profissionais, que possam apoiar e orientar durante todo o processo.

Os cuidadores podem também encontrar apoio em grupos de apoio online ou na comunidade ao redor, onde possam expressar de forma segura a raiva, ansiedade, frustração e tristeza sobre a experiência de cuidar, em vez de deixar esses sentimentos transparecer inadvertidamente durante uma conversa tensa com o idoso.

Saber comunicar

O cuidador necessita também de desenvolver ferramentas de comunicação para expressar a sua necessidade de limites.

A honestidade e a simplicidade ao falar sobre sentimentos e necessidades não são fáceis, especialmente se a pessoa não estiver habituada a ter esse tipo de discussão direta.

Com uma abordagem de comunicação simples, mas eficaz, pode ajudar os cuidadores a expressar sentimentos e estabelecer limites.

Uma abordagem mais simples incentiva o cuidador a falar do seu ponto de vista, de forma não acusatória, expressando as limitações ou sentimentos do cuidador e oferecendo uma solução alternativa. Para isso, o cuidador pode utilizar afirmações na primeira pessoa, por exemplo.

Uma forma de o fazer seria dizer explicitamente o porquê da recusa e oferecer alternativas, como por exemplo, não poder levar o idoso a consultas médicas e oferecer outras opções de transporte.

Ou ainda, não continuar com a responsabilidade de limpar a casa semanalmente, para passar mais tempo com o idoso em outras atividades, reconhecendo que é difícil deixar que pessoas novas ajudem, mas informar que é hora de contratar um serviço de limpeza doméstica com o qual o idoso se sinta confortável.

Em cada uma das afirmações, deverá haver uma apresentação do que o cuidador não pode continuar a fazer, um reconhecimento de que a mudança terá uma consequência para o idoso e uma solução sugerida.

Não é feita qualquer tentativa de fazer com que o idoso se sinta culpado pelo esforço que o cuidador está a despender ou pelo nível de stress do cuidador. Entende-se que o idoso sabe que o cuidador está a trabalhar arduamente.

No início, expressar limites em declarações em primeira pessoa pode parecer estranho, mas com a prática, os cuidadores podem aprender a levantar temas difíceis, estabelecendo uma atmosfera confortável para a discussão.

Reajustar se necessário

Por último, o cuidador deve ainda ser capaz de manter a nova abordagem, permitindo que o idoso tenha tempo para reagir e expressar os seus sentimentos sobre as mudanças. Reajustar o equilíbrio em qualquer relacionamento leva tempo, especialmente quando ambos têm necessidades conflitantes.

Estabelecer limites é da responsabilidade do cuidador. No entanto, há um convite para discussão e resolução conjunta de problemas.

Inicialmente, o cuidador pode enfrentar resistência por parte do idoso para dialogar sobre mudanças na prestação de cuidados.

É necessária uma persistência gentil para atender à necessidade de novos limites. Discussões que podem ser introduzidas num momento em que ambos estão menos estressados e se sentem tranquilos e confortáveis um com o outro são discussões que têm maior chance de sucesso.

Evitar tomar decisões sobre mudanças durante emergências. Esperar até que a situação se acalme e ambas as partes possam ter tempo para refletir sobre as questões cria uma atmosfera de tomada de decisão conjunta e apropriação do resultado. 

Fazer mudanças em pequenos passos em direção a uma mudança maior dá a todos a oportunidade de se adaptarem confortavelmente.

Conclusão

Cuidar de um idoso é gratificante e desafiador. Sem limites, é fácil ficar fisicamente e emocionalmente em exaustão. Embora possa parecer difícil dizer “não”, isso é essencial para criar uma rotina de cuidados que seja sustentável e saudável.

No entanto, não é fácil. É difícil dizer não aos idosos. O cuidador pode começar com pequenos passos e validar o seu esforço quando vir resultados positivos.

Pessoas que estão habituadas a exercer poder e a fazer as coisas à sua maneira podem não responder bem às mudanças na dinâmica e ao estabelecimento de limites, mas o cuidador não deve deixar que isso o desanime.

Pode explicar a situação ao idoso, mas deve manter a discussão simples para evitar criar espaço para discussões incessantes e insistentes que insinuam que o estabelecer limites era apenas uma sugestão.

Depois, o cuidador deve continuar com os limites que estabeleceu. Pode demorar algum tempo até que o idoso aceite a nova dinâmica, mas, em muitos casos, não há outra opção.

Dizer “não” pode ser um processo difícil, mas é mais um passo para um melhor bem-estar tanto dos cuidadores como dos idosos.

Poderá ser assustador no início, mas fica mais fácil ao longo do tempo. Esse é um processo que pode levar o seu tempo. O cuidador deve ser paciente consigo mesmo e ter em mente que as recompensas a longo prazo podem valer a pena.

Estabelecer limites claros beneficia tanto o cuidador como a pessoa que recebe os cuidados.

Reservar um tempo para recarregar as energias permite encontrar mais paciência, atenção e estar emocionalmente mais presente. Quando o cuidador prioriza o seu bem-estar, melhora a qualidade dos cuidados que presta.

Poucos destinatários de cuidados gostam de depender dos seus cuidadores, porque isso os faz sentir diminuídos e fracos. Os idosos também se preocupam e podem sentir-se culpados pela forma como os seus cuidadores são afetados por cuidar deles.

Embora em muitos casos já não consigam realizar certas tarefas e tenham de depender de outras pessoas, há ocasiões em que, com mais tempo e esforço, poderiam fazer algo por si próprios, mas os seus cuidadores estão lá para realizarem a tarefa.

Quando os cuidadores dizem “não”, podem, na verdade, estar a proporcionar aos destinatários dos cuidados a oportunidade de agir com maior independência e, por conseguinte, criar mais oportunidades para uma melhor qualidade de vida de idosos e cuidadores.

Juntos Cuidamos Melhor!

(FAQ) Perguntas Frequentes

O cuidador pode recusar cuidar do idoso?

Sim. O cuidador deve preservar também o seu bem-estar mental e físico. Assim, se o cuidador sentir que está à beira do esgotamento ou exaustão, deverá procurar ajuda e uma maneira de atenuar o seu stress.

Referências:

  • Caregiver.com
  • AgingCare