Uma perda aqui, outra acolá durante a noite e, quando se dá por isso, as fraldas e os resguardos já fazem parte da lista de compras.
É uma resposta natural a um problema que precisa de ser gerido. Mas há uma pergunta que convém fazer antes de ficar apenas pelas proteções: porque estão a acontecer estas perdas?
A incontinência urinária é mais frequente nas pessoas idosas, mas não deve ser encarada como uma consequência inevitável do envelhecimento. Pode estar relacionada com a bexiga, com uma doença, com a medicação ou até com algo tão prático como não conseguir chegar à casa de banho a tempo. E isso muda bastante a forma de lidar com o problema.
Porque surgem perdas de urina nos idosos?
A incontinência urinária pode ter diferentes origens. Alterações da bexiga ou do pavimento pélvico, problemas da próstata, infeções urinárias, obstipação e alguns medicamentos estão entre as mais frequentes. O controlo da urina também pode ser afetado por doenças como a diabetes, a doença de Parkinson e a demência, ou surgir na sequência de um AVC.
Nem sempre, porém, a bexiga é a culpada.
Alguém com mobilidade reduzida pode sentir perfeitamente vontade de urinar e conseguir controlar a bexiga. O problema começa quando levantar-se da cadeira, chegar à casa de banho e despir-se demora mais tempo do que a bexiga está disposta a esperar.
Por isso, se as perdas apareceram recentemente ou estão a tornar-se mais frequentes, não as atribua automaticamente à idade. É importante perceber o que mudou.
Nem todas as incontinências são iguais
O modo como as perdas acontecem pode dar pistas sobre o tipo de incontinência, sendo possível apresentar mais do que um tipo em simultâneo.
» Incontinência de esforço
Um espirro, uma gargalhada, tosse ou algum esforço físico e escapa urina. Neste tipo de incontinência, as perdas surgem quando aumenta a pressão sobre a bexiga.
» Incontinência de urgência
A vontade aparece de repente e vem com pouca margem para negociações. É difícil adiá-la e nem sempre há tempo para chegar à casa de banho.
Pode existir também maior frequência urinária e necessidade de se levantar várias vezes durante a noite.
» Incontinência por transbordamento
A bexiga não consegue esvaziar adequadamente e fica demasiado cheia. Em vez de uma perda maior, podem surgir pequenas perdas frequentes ou gotejamento.
Alterações da próstata, obstruções e alguns problemas neurológicos são causas possíveis e devem ser investigadas.
» Incontinência funcional
A bexiga dá o aviso, mas existe outro obstáculo pelo caminho.
Dificuldade em levantar-se ou andar, artrite, alterações cognitivas e problemas em despir a roupa a tempo são alguns exemplos. Neste caso, melhorar o acesso à casa de banho pode ser tão importante como olhar para a própria função urinária.
Começou de repente? É preciso perceber porquê
Quem controlava a urina e começa a ter perdas num curto espaço de tempo não se tornou simplesmente “incontinente” de um dia para o outro.
Uma infeção urinária, obstipação, alterações da medicação ou outro problema de saúde podem explicar esta mudança. Dor ou ardor ao urinar, alterações da frequência e dificuldade em esvaziar a bexiga são sinais a ter em conta.
Durante alguns dias, pode ainda ser útil anotar os horários das idas à casa de banho, os episódios de perda e a quantidade de líquidos ingerida. Não é preciso transformar a casa num laboratório: um registo simples já permite perceber se existe algum padrão e dá informação útil ao profissional de saúde.
Às vezes, o problema está no caminho até à sanita
Há quem tenha tempo suficiente para perceber que precisa de urinar, mas não para cumprir todas as etapas que vêm a seguir: levantar-se de uma poltrona baixa, alcançar o andarilho, atravessar o corredor, entrar na casa de banho e ainda despir-se.
Com mobilidade reduzida, aquilo que parece um percurso de poucos metros pode tornar-se uma corrida contra o relógio.
É aqui que pequenas adaptações fazem diferença.
Uma cama ou cadeira com altura adequada, barras de apoio, um alteador de sanita, roupa mais fácil de retirar ou uma cadeira sanitária próxima podem encurtar este percurso e permitir que a pessoa continue a utilizar a casa de banho com maior autonomia.
Antes de assumir que “já precisa de fralda”, convém perceber se não existem obstáculos que possam ser retirados.
Não espere sempre pelo “tenho de ir agora”
Quando a vontade aperta, pode já não haver tempo para quem demora a levantar-se ou a chegar à casa de banho.
Conhecer os hábitos urinários ajuda a antecipar alguns episódios. Se as perdas aparecem quase sempre em determinadas alturas, experimentar uma ida à casa de banho um pouco antes pode fazer diferença.
Não é necessário andar de cronómetro na mão. Os intervalos devem acompanhar os hábitos, a mobilidade, a capacidade de comunicação e a situação clínica de cada pessoa. A ideia é criar uma rotina útil, não mais uma obrigação.
Menos água não significa menos problemas
“Se beber menos, vai menos vezes à casa de banho.”
Parece fazer sentido. Na prática, não é uma boa estratégia. Beber menos líquidos do que o necessário aumenta o risco de desidratação e pode trazer outros problemas de saúde.
Também interessa perceber o que se bebe. Café, chá e outras bebidas com cafeína podem agravar a urgência e a frequência urinária em algumas pessoas.
As necessidades de líquidos variam de pessoa para pessoa. Quando há indicação médica para restringir a ingestão, como em algumas doenças cardíacas ou renais, essa orientação deve ser respeitada.
À noite, o caminho deve ser simples
De dia, chegar à casa de banho pode já ser difícil. Às três da manhã, com pouca luz e ainda meio a dormir, não fica propriamente mais fácil. Para alguém com equilíbrio reduzido ou dificuldade em andar, levantar-se várias vezes durante a noite aumenta ainda o risco de queda.
Faça o percurso entre a cama e a casa de banho com outros olhos: há tapetes soltos? Móveis pelo caminho? A luz é suficiente? O andarilho fica onde consegue ser alcançado antes de se levantar? Até a altura da cama conta. Uma cama demasiado baixa pode dificultar o levante.
Quando a casa de banho fica longe ou a deslocação é pouco segura, uma cadeira sanitária próxima da cama pode ser uma alternativa, consoante o nível de mobilidade e autonomia.
O último obstáculo pode ser a roupa
Cintos, botões pequenos, fechos difíceis e calças muito apertadas podem complicar uma tarefa que antes era automática, sobretudo quando há menor destreza nas mãos.
Trocar umas calças por outras mais fáceis de retirar pode parecer um pormenor. Na prática, pode ser a diferença entre conseguir despir-se a tempo ou não e permitir que a ida à casa de banho continue a ser feita com maior autonomia.
Fralda, penso ou fralda-cueca? Nem todos precisam do mesmo
Os produtos absorventes são uma parte importante da gestão da incontinência, mas a escolha deve ser adaptada às perdas e ao grau de autonomia.
Pensos para incontinência podem ser suficientes perante perdas ligeiras a moderadas, sobretudo quando existe autonomia para ir à casa de banho e fazer a própria higiene.
Fraldas-cueca são práticas quando existe mobilidade e capacidade para as subir e descer como roupa interior. Podem facilitar a ida autónoma à casa de banho sem obrigar a retirar completamente a proteção.
Fraldas com abas laterais tendem a ser mais adequadas perante perdas mais abundantes ou quando é necessária ajuda para a mudança. Em quem permanece na cama, as abas facilitam a colocação e a substituição da fralda.
Resguardos ajudam a proteger a cama, o colchão, a cadeira ou a poltrona, mas funcionam como proteção complementar e não substituem o produto absorvente adequado.
Além do tipo, é preciso considerar a quantidade e frequência das perdas, o tamanho, a mobilidade, a autonomia e o período de utilização. Um produto demasiado pequeno pode apertar e favorecer fugas; demasiado grande também pode não ajustar corretamente.
Há ainda um cuidado importante: usar uma fralda não deve significar deixar de ir à casa de banho quando essa capacidade se mantém.
A pele não deve ficar esquecida debaixo da fralda
O contacto prolongado com a urina mantém a pele húmida e torna-a mais vulnerável a irritações e lesões. Se existirem perdas de fezes, o risco aumenta e os cuidados devem ser redobrados.
Verifique regularmente a proteção e substitua-a quando estiver suja ou húmida. Na higiene, evite esfregar e seque bem a pele antes de colocar uma nova, sem esquecer as pregas.
Vermelhidão que não desaparece, pele macerada, dor ou feridas merecem atenção.
Em quem passa muitas horas sentado ou deitado, há mais um fator a considerar: à humidade juntam-se a pressão e a fricção. Uma combinação pouco amiga de uma pele que, com a idade, já tende a ser mais frágil.
Na demência, perguntar nem sempre chega
“Precisa de ir à casa de banho?”
“Não.”
Pouco depois, a roupa está molhada.
Na demência, as perdas de urina nem sempre acontecem por falta de controlo da bexiga. A pessoa pode já não reconhecer bem a vontade de urinar, ter dificuldade em explicar o que sente, não encontrar a casa de banho ou não conseguir despir-se e utilizar a sanita sem orientação.
Em vez de repetir a mesma pergunta várias vezes, procure conhecer os horários habituais e os sinais daquela pessoa. Maior inquietação, levantar-se repetidamente ou mexer na roupa podem, em alguns casos, anteceder a necessidade de urinar.
Uma casa de banho fácil de encontrar e de utilizar, roupa simples de retirar e rotinas conhecidas ajudam a preservar esta autonomia durante mais tempo.
Incontinência como rotina
Uma ida à casa de banho pode deixar de ser apenas uma ida à casa de banho.
É preciso ajudar a levantar, acompanhar até à sanita, apoiar na higiene, trocar a proteção, vestir novamente e, quando houver uma perda maior, mudar também a roupa ou a cama.
Se isto acontece várias vezes durante o dia – e continua durante a noite – a exigência para quem cuida aumenta rapidamente.
A Novo Cuidar disponibiliza apoio domiciliário pontual ou regular, adaptado ao grau de autonomia e às necessidades de cada família. Os cuidados podem incluir higiene pessoal, vestir, mobilidade, acompanhamento à casa de banho e apoio noutras atividades do dia a dia.
A vergonha também pesa
Há quem comece a dizer que não lhe apetece sair. Recusa um almoço, evita uma viagem ou procura imediatamente a casa de banho sempre que chega a algum lado. Por trás destas mudanças pode estar algo que custa dizer em voz alta: o medo de ter uma perda de urina em público.
Outros tentam resolver o problema bebendo menos antes de sair, levam uma muda de roupa ou escolhem sempre um lugar próximo da casa de banho. Pequenas estratégias que mostram até que ponto a incontinência pode começar a condicionar o dia a dia.
Em casa, a forma como se fala do assunto também conta. Comentários, brincadeiras ou repreensões podem aumentar o embaraço e levar a esconder as perdas.
A incontinência é um problema de saúde, não uma falta de higiene ou de cuidado. Tratá-la com naturalidade permite procurar soluções sem acrescentar vergonha a um problema que já é suficientemente desconfortável.
Quando é preciso falar com um profissional de saúde?
A incontinência merece avaliação quando surge recentemente, se agrava ou começa a interferir com a rotina.
Procure aconselhamento perante:
- dor ou ardor ao urinar;
- sangue na urina;
- dificuldade em começar a urinar;
- sensação de que a bexiga não ficou vazia;
- alterações marcadas da frequência urinária;
- perdas que apareceram subitamente.
Uma nova incontinência acompanhada por fraqueza súbita nas pernas ou perda de sensibilidade nas pernas, região genital ou em redor do ânus exige avaliação médica urgente.
Antes de gerir as perdas, é preciso perceber porque acontecem
Fraldas, pensos e resguardos cumprem uma função importante. Absorvem a urina e tornam o dia a dia mais fácil. Mas não respondem à pergunta principal: porque começou esta pessoa a perder urina?
Olhar para o momento em que as perdas começaram, os horários em que acontecem, a medicação, a mobilidade e as dificuldades no acesso à casa de banho pode revelar aspetos que ainda são possíveis de tratar ou melhorar.
Nem todas as situações terão solução completa. Mesmo assim, há uma grande diferença entre simplesmente conter uma perda e encontrar a melhor forma de viver com ela.
Preservar a autonomia sempre que ainda existe é uma dessas diferenças.
